Curtindo a companhia

Familiar-cuidador

Para demonstrar minha experiência com minha mãe, com Doença de Alzheimer, faço o relato em três partes:
 

Aceitação

No início, pensávamos que ela estava apenas descuidada, porque repetia as mesmas coisas, não encontrava o que ela própria guardava, esquecia as datas dos aniversários de familiares que ela sempre lembrava. Muito depressa, a situação se agravou.

A primeira vez que defecou na roupa, ela tentou esconder e piorou tudo, sujando mais roupas. A calma que vínhamos tentando manter acabou. E o temor da doença aumentou, pois, além dos problemas físicos, surgiram os de ordem mental: ela ouvia vozes, músicas, via coisas inexistentes. Desesperados, procuramos um médico.

Logo pensamos numa internação hospitalar, porque em “casas de repouso” havíamos tido terríveis experiências com outra pessoa da família. Depois de tentar sem sucesso a hospitalização, resolvemos mantê-la em casa, contratando uma cuidadora profissional experiente.

Sentimos o tamanho do problema, nossa impotência e o despreparo para enfrentar essa situação. Admitimos o fato e o aceitamos. Tivemos de entrar em ação.
 

Ação

Como já havíamos comprado a cadeira e rodas com o assento vazado, compramos a cama hospitalar com grade, a fim de aliviar as nossas costas e posicionar melhor nossa mãe doente.

Distribuímos as funções: minha irmã cuidaria da alimentação e dos remédios, eu cuidaria da higiene, do vestuário e dos relatos à médica. Na medida em que fossem aparecendo os problemas, íamos aprendendo a lidar com eles. A cada dia ela estava de um jeito, com mudanças rápidas.
Às vezes, apresentava-se lúcida e alegre, até nos beijava, agradecia e dizia que nos amava. Outras vezes, fica nervosa, agredia-nos com tapas, beliscões, xingamentos e gestos. Por isso, mantínhamos suas unhas bem cortadas.

Aprendemos a tratar das escaras, passamos a detectá-las no início, a dosar a alimentação, para regular a evacuação, a ficarmos atentos às reações dos medicamentos. Tentamos estabelecer horários para tudo, e continuamos a aprender com esses cuidados.

A geriatra que cuida dela nos convidou a participar das reuniões da ABRAz, para troca de experiências com outros cuidadores e profissionais. Tem sido de grande utilidade e, por isso, continuamos a participar. Temos proporcionado, com essa ajuda, uma melhor qualidade de vida à nossa doente e a nós mesmos.
 

Resultado

Passaram-se mais de dez anos desde que notamos os primeiros sintomas. Porém, faz dois anos que ela está dependente em todas as atividades.Tivemos de vencer nossos pudores para limpá-la, dar banho, tocar no seu corpo, já que fomos criados com tabus sobre as regiões íntimas do corpo. Agora podemos perceber que, ao cuidar de nossa mãe, estamos cuidando de nós mesmas; o contato físico que nunca tivemos, falar do que queremos e o ouvir o que não queremos faz sentir que estamos juntas, como nunca. Isso nos fez mudar o que dissemos no início, que tínhamos um problema.

O medo ou problema continuam, quando fugimos deles, mas desaparecem quando os enfrentamos.

Não pensamos quanto tempo vai durar essa situação, pouco importa. Pensamos e procuramos viver um dia de cada vez, pois cada novo dia traz situações diferentes para o aprendizado.

Assim, quando as coisas não vão muito bem, pensamos que hoje é o tempo que temos para aproveitar. Agradecendo a Deus pela oportunidade, vamos curtindo a companhia de nossa mãe.