A discussão sobre os novos tratamentos para a doença de Alzheimer não estaria completa sem abordar os desafios práticos de acesso, os custos envolvidos e, principalmente, o que podemos fazer hoje para prevenir a doença. Embora a ciência tenha avançado para terapias que modificam o curso da patologia, a saúde pública e a prevenção continuam sendo os pilares mais importantes para a população brasileira.
Este último artigo da série discute a realidade do tratamento no Brasil e o trabalho contínuo para fortalecer a linha de cuidado.
O poder da prevenção: Fatores de risco modificáveis
Um dos dados mais marcantes discutidos pelos nosso especialistas é que cerca de 60% dos casos de demência no Brasil podem ser atribuídos a fatores de risco modificáveis. Isso significa que, independentemente da chegada de novos remédios, existe uma enorme janela de oportunidade para prevenir ou adiar o aparecimento da doença por meio de hábitos de vida.
O controle da hipertensão, do diabetes, o combate ao tabagismo, a prática de atividades físicas e o estímulo cognitivo são estratégias fundamentais. Investir em saúde ao longo da vida é a forma mais eficaz e acessível de reduzir o impacto das demências no futuro.
Os desafios de custo e acesso no Brasil
As novas terapias anti-amiloides representam um avanço tecnológico, mas também trazem um desafio financeiro significativo. Atualmente, o custo estimado desses tratamentos é elevado, podendo variar entre R$ 25.000 e R$ 30.000 por mês, sem contar os custos adicionais com exames de biomarcadores e monitoramento frequente por ressonância magnética.
No cenário atual, esses medicamentos ainda não estão incluídos no rol da ANS nem disponíveis no SUS. Isso cria uma barreira de acesso que limita o tratamento a uma parcela muito pequena da população, reforçando a necessidade de discussões sobre precificação e sustentabilidade do sistema de saúde.
A realidade do diagnóstico no sistema público
Outro ponto de atenção é a disparidade no diagnóstico. Enquanto as novas terapias são indicadas para cerca de 10% dos pacientes em fases iniciais, estima-se que, em muitas regiões do Brasil, apenas 10% das pessoas que vivem com demência tenham um diagnóstico formal.
Para que qualquer avanço terapêutico chegue a quem precisa, o primeiro passo é melhorar a rede de identificação precoce no SUS. Isso envolve capacitar médicos da atenção básica, enfermeiros e profissionais de saúde para reconhecer os sinais iniciais e encaminhar os pacientes para uma investigação adequada.
O plano nacional de demências e o papel da CONAD
A ABRAz, por meio de sua comissão de políticas públicas e em conjunto com a CONAD, tem trabalhado ativamente junto ao Ministério da Saúde. O objetivo é implementar uma linha de cuidado robusta que vá desde a prevenção e o diagnóstico até o suporte ao cuidador.
A expectativa é que, em 2026, o Brasil avance na consolidação de um plano nacional de demências. Esse plano é essencial para organizar os recursos, definir protocolos de tratamento e garantir que o cuidado com o Alzheimer seja tratado como uma prioridade de saúde pública.
O legado das novas terapias
Mesmo com os desafios de acesso, a chegada dos novos tratamentos deixa um legado importante: ela obriga o sistema de saúde a se modernizar. A necessidade de biomarcadores e diagnósticos mais precisos acelera a estruturação de centros de referência e a capacitação de equipes multidisciplinares.
O futuro do cuidado em Alzheimer no Brasil depende dessa combinação: ciência de ponta para quem tem indicação, mas, acima de tudo, políticas públicas eficientes e prevenção para toda a sociedade.
Ao longo desta série, reunimos os principais pontos que ajudam a entender o que está mudando no cenário do Alzheimer: a transição de um cuidado centrado apenas em sintomas para um cuidado que busca atuar também no processo biológico da doença, a importância do diagnóstico preciso e da segurança no uso das terapias anti-amiloides, e o desafio de transformar avanço científico em acesso real para quem precisa.
A mensagem final é direta. Novas terapias abrem caminhos, mas prevenção, diagnóstico precoce, suporte a cuidadores e organização do sistema de saúde continuam sendo a base para reduzir o impacto das demências no Brasil.
Sobre o ABRAz Talks
O ABRAz Talks é uma iniciativa da ABRAz para levar informação de qualidade sobre demências e cuidado, conectando conhecimento científico e vida real.
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