Terapias anti-amiloides: como funcionam e o que esperar dos resultados

Nos últimos anos, um dos temas mais discutidos em Alzheimer passou a ser o avanço de terapias que buscam interferir no processo biológico da doença. No ABRAz Talks 8, a diretoria científica da ABRAz explicou de forma acessível o que são as terapias anti-amiloides, por que elas representam uma mudança importante e quais são os limites do que elas conseguem entregar.

Este artigo aprofunda esse ponto. A proposta é deixar claro o que esses tratamentos fazem, como são administrados e o que de fato pode ser esperado na prática.

O que significa terapia anti-amiloide?

A doença de Alzheimer envolve o acúmulo anormal de proteínas no cérebro, especialmente a beta amiloide e a tau. O entendimento atual é que a beta amiloide participa do início de uma cascata de alterações que, com o tempo, contribui para lesão e morte de neurônios.

As terapias anti-amiloides são tratamentos que têm como alvo justamente a proteína beta amiloide. Em termos simples, são terapias que tentam reduzir o acúmulo dessa proteína no cérebro para tornar a progressão clínica mais lenta em pessoas em fases iniciais da doença.

Anticorpos monoclonais: o que são e por que esse nome aparece tanto

Os medicamentos anti-amiloides fazem parte de uma classe chamada anticorpos monoclonais

Anticorpos são moléculas do sistema imunológico. Já os anticorpos monoclonais são produzidos em laboratório para reconhecer um alvo específico. No caso do Alzheimer, o alvo é a beta amiloide, em diferentes formas, como oligômeros e placas.

Isso ajuda a entender por que muitos desses medicamentos terminam com a sigla mab, de monoclonal antibody.

Como o amiloide se organiza no cérebro

Para entender a lógica desses medicamentos, os especialistas explicaram que o amiloide pode estar presente em diferentes estágios de organização.

Ele começa em formas pequenas e vai se agrupando até formar estruturas maiores. Em uma explicação simplificada, podemos pensar em:

  • Monômeros, unidades pequenas
  • Oligômeros, agrupamentos intermediários
  • Placas, estruturas mais maduras e características da doença
 

Os tratamentos anti-amiloides buscam interferir nesse processo, reduzindo o depósito e o acúmulo dessas formas no cérebro.

Donanemab e lecanemab: o que são e como funcionam

No Brasil, foram mencionadas duas terapias anti-amiloides aprovadas.

O donanemab e o lecanemab são medicamentos administrados por infusão intravenosa. Eles circulam no sangue, alcançam o cérebro e atuam ajudando a reduzir depósitos de amiloide.

Uma diferença prática é a frequência das infusões:

  • Donanemab costuma ser administrado a cada 28 dias
  • Lecanemab costuma ser administrado a cada 14 dias
 

Existem diferenças farmacológicas, como o alvo mais específico em formas do amiloide. Em termos gerais, a ideia central é a mesma: buscar remover parte do amiloide para tornar a progressão mais lenta.

O que esperar na prática: não é cura, é modificação do curso

Um ponto reforçado com clareza foi que esses tratamentos não são a cura do Alzheimer.

A expectativa realista é que, em pacientes elegíveis e nos estágios em que há indicação, exista uma redução na velocidade de progressão. Isso significa que o quadro segue evoluindo, mas em um ritmo mais lento quando comparado a quem não recebe a medicação.

Durante a conversa, foi citado que, em estudos, a diferença entre grupos pode chegar a cerca de 38 a 40% em escalas clínicas. Traduzindo para o cotidiano, o que se busca é que a pessoa se mantenha por mais tempo em uma mesma fase clínica.

Por que a fase da doença importa tanto?

Esses tratamentos são indicados para fases iniciais. Isso inclui o comprometimento cognitivo leve (CCL)  e, em alguns casos, demência leve, quando existe confirmação diagnóstica e elegibilidade clínica.

Em estágios moderados e avançados, não há indicação, porque já existe um grau de comprometimento estrutural e funcional mais importante, e os estudos não foram desenhados para demonstrar benefício nessa fase.

Isso muda também a forma como o diagnóstico é encarado. A conversa aponta para uma tendência de buscar identificar Alzheimer com mais precisão e mais cedo, porque o tratamento depende de estágio.

O cuidado continua sendo integral

Mesmo com avanços terapêuticos, os especialistas reforçaram que o cuidado não se resume à medicação. O acompanhamento multiprofissional, o suporte a familiares e cuidadores, a organização de rotina e o acesso a informação confiável seguem sendo pilares do cuidado.

A terapia pode ser uma parte do plano. Mas o plano precisa continuar sendo completo.

No próximo artigo, vamos explicar por que esses tratamentos exigem um diagnóstico mais preciso e quais são os principais pontos de segurança e acompanhamento, incluindo biomarcadores, ressonância e critérios de elegibilidade.

Sobre o ABRAz Talks

O ABRAz Talks é uma iniciativa da ABRAz para levar informação de qualidade sobre demências e cuidado, conectando conhecimento científico e vida real.

O episódio completo está disponível nesta página. Assista e compartilhe para que mais pessoas tenham acesso a informação de qualidade.

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