A ciência vive um momento de grandes expectativas e de debates intensos sobre o tratamento da doença de Alzheimer. Recentemente, a Cochrane, organização reconhecida mundialmente por suas revisões sistemáticas, publicou um estudo sobre o uso de anticorpos monoclonais anti-amilóides, como o lecanemabe e o donanemabe. No entanto, a forma como os dados foram agrupados nesta revisão têm gerado discussões importantes entre especialistas da área.
Ao analisar 17 ensaios clínicos com mais de 20 mil participantes, a revisão Cochrane acabou misturando medicamentos que já se mostraram ineficazes com as novas drogas que apresentam resultados positivos. Quando se coloca no mesmo grupo substâncias que funcionam e outras que falharam, o benefício real das terapias eficazes acaba sendo diluído, o que pode passar uma mensagem equivocada sobre o estágio atual da medicina.
Um dos pontos centrais da discussão é o momento em que o tratamento é iniciado. Medicamentos como o lecanemabe e o donanemabe, já aprovados pela Anvisa, são eficazes quando administrados em fases iniciais da doença, como o comprometimento cognitivo leve. Tentar aplicar estas mesmas drogas em pacientes com demência em estágio avançado é como tentar apagar um grande incêndio quando a estrutura já está comprometida. A eficácia depende diretamente da precocidade do diagnóstico.
É fundamental que a sociedade e a comunidade científica compreendam que estamos diante de uma mudança de paradigma. Pela primeira vez, existem drogas capazes de modificar a biologia da doença e não apenas tratar sintomas superficiais. Embora existam riscos de efeitos colaterais que exigem monitoramento rigoroso, a possibilidade de retardar a progressão da doença é uma conquista que não pode ser ignorada.
A ABRAz reforça que a esperança no combate ao Alzheimer deve ser pautada pelo equilíbrio. Precisamos de rigor científico para garantir a segurança dos pacientes, mas também de uma leitura atenta das evidências clínicas que mostram avanços reais. O caminho para o tratamento envolve educação, acesso a biomarcadores para diagnóstico preciso e uma compreensão profunda da individualidade de cada pessoa afetada pela doença.
O combate ao Alzheimer é um desafio complexo e contínuo. Entender as limitações e as potencialidades das novas terapias é o primeiro passo para oferecer uma melhor qualidade de vida para os pacientes e seus familiares.
Créditos: Este artigo foi baseado na matéria original publicada na Folha de S.Paulo em 05 de maio de 2026, no caderno de saúde, sob o título “Ainda há esperança no combate contra o Alzheimer: o rigor científico”.
Colaboraram com o artigo:
Sharon Sanz Simon: Psicóloga e neurocientista, professora da Rutgers University (EUA) e pesquisadora do Krieger Klein Alzheimer’s Research Center.
Willians Vendramini Borelli: Neurologista, professor da UFRGS e coordenador do Centro da Memória do Hospital Moinhos de Vento.
Celene Pinheiro: Médica geriatra, presidente da Associação Brasileira de Alzheimer e Condições Similares (ABRAz).
Norberto Anízio Ferreira Frota: Neurologista, coordenador do ambulatório de neurologia cognitiva e do comportamento do Hospital Geral de Fortaleza, coordenador do Setor de Neurologia do Hospital São Carlos Fortaleza Rede D’Or, diretor científico da ABRAz.
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