Lembrar com exatidão de acontecimentos distantes, reviver cenas da infância com riqueza de detalhes ou acessar memórias autobiográficas como se fossem recentes costuma ser visto como sinal de inteligência privilegiada. No imaginário popular, a memória extraordinária aparece como um dom raro. Mas, para a ciência, a hipermnésia levanta questões complexas sobre como o cérebro organiza lembranças, qual é o papel do esquecimento e onde estão os limites entre habilidade cognitiva e sofrimento emocional. Embora não seja considerada uma doença em si, essa condição pode se tornar um desafio quando o passado passa a ocupar espaço excessivo no presente e começa a afetar emoções, sono e qualidade de vida.
Na prática clínica, a hipermnésia não é reconhecida como um diagnóstico isolado pela psiquiatria. O psiquiatra e coordenador do serviço de psiquiatria do Hospital Anchieta, Fábio Leite, explica que ela pode aparecer tanto como traço cognitivo quanto como sintoma associado a outras condições. Ele destaca que, isoladamente, a hipermnésia não indica nenhum problema de saúde mental, e que a avaliação precisa considerar o contexto geral do paciente, observando se a memória ampliada vem acompanhada de alterações de humor, aceleração do pensamento, crises de ansiedade, dificuldades de socialização ou prejuízos na vida profissional e afetiva.
A neurologia reforça esse cuidado ao diferenciar memória excepcional de hipermnésia clínica verdadeira. Bruno Iepsen, neurologista da Comissão Científica da ABRAz, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia e coordenador da residência médica em neurologia do Hospital Geral de Fortaleza, ressalta que a hipermnésia descreve uma capacidade incomum de lembrar informações com enorme riqueza de detalhes por longos períodos. Ele pontua que não se trata de memória perfeita, mas de um acesso muito facilitado às lembranças, especialmente autobiográficas. Do ponto de vista cerebral, esse funcionamento parece estar ligado a uma maior eficiência dos circuitos envolvidos na consolidação e na recuperação da memória, o que ajuda a explicar por que algumas lembranças são revividas com intensidade tão marcante.
Segundo Bruno Iepsen, as principais estruturas associadas à hipermnésia incluem o hipocampo, essencial para a formação das memórias, o córtex pré-frontal, responsável pela organização e pelo resgate das informações, e a amígdala, que imprime carga emocional às lembranças. Ele explica que, na hipermnésia, esses sistemas parecem trabalhar de forma particularmente integrada, e esse elo entre memória e emoção ajuda a entender por que muitas lembranças podem ser revividas com intensidade quase sensorial.
Apesar do fascínio que o tema desperta, a hipermnésia é considerada rara do ponto de vista neurológico, com poucos casos bem documentados na literatura científica. Carlos Uribe, neurologista do Hospital Brasília, da Rede Américas, lembra que muitos relatos de “memória excepcional” não correspondem à condição clínica. A matéria cita como referência um caso descrito no século 19 pelo neuropsicólogo russo Alexander Luria, que acompanhou um paciente com capacidade prodigiosa de memorização, mas com grandes dificuldades funcionais, e observa que, hoje, esse perfil provavelmente seria classificado como um caso de Savant, frequentemente associado a traços do espectro autista.
Quando a hipermnésia aparece associada a transtornos psiquiátricos, seu impacto tende a ser mais intenso. O psiquiatra Gustavo Yamin Fernandes, do Hospital Samaritano Higienópolis, afirma que o sofrimento não está na quantidade de memórias, mas na falta de controle sobre elas, resumindo que o que adoece não é lembrar muito, mas não conseguir desligar ou regular essas lembranças. Em quadros de ansiedade, as memórias podem alimentar preocupações repetitivas, enquanto na depressão é comum a fixação em recordações negativas, em um processo conhecido como ruminação. No transtorno de estresse pós-traumático, as memórias traumáticas surgem com extrema vividez e sensação de atualidade, como se o evento ainda estivesse acontecendo, e, nesse contexto, a hipermnésia não é uma habilidade, mas parte do mecanismo do transtorno. A matéria também menciona que, em fases de hipomania ou mania do transtorno bipolar, pode ocorrer aceleração do pensamento associada a maior ativação da memória.
Os reflexos no dia a dia podem incluir dificuldade para iniciar o sono, despertares noturnos, sonhos vívidos, cansaço mental, irritabilidade e dificuldade de concentração. Fábio Leite ressalta que qualquer intervenção deve considerar o grau de prejuízo funcional, e que a hipermnésia só precisa ser tratada quando há sofrimento significativo ou limitação da vida social, familiar ou profissional.
Um ponto central é que esquecer é tão importante quanto lembrar. Bruno Iepsen destaca que o cérebro humano não foi projetado para armazenar tudo indiscriminadamente, e que o processo de memória envolve seleção, organização e descarte, preservando informações relevantes emocional ou funcionalmente e eliminando outras para evitar sobrecarga. Carlos Uribe complementa que, em algumas condições neurológicas específicas, como epilepsias do lobo temporal ou após traumatismos cranioencefálicos, podem surgir episódios transitórios de memória intensificada, mas observa que, na maioria das vezes, lesões cerebrais levam à perda, e não ao ganho de memória. Exames de imagem, como a ressonância magnética, costumam ser usados mais para descartar outras condições do que para confirmar hipermnésia, já que não há marcadores específicos para o diagnóstico.
A investigação clínica envolve avaliação detalhada da história de vida, testes neuropsicológicos e análise do impacto da memória no cotidiano. Quando há necessidade de cuidado, o foco do tratamento não é apagar lembranças, mas reduzir o impacto emocional associado a elas, com técnicas como terapia cognitivo-comportamental, mindfulness e estratégias de regulação emocional. Medicamentos podem ser indicados quando há transtornos associados, como ansiedade, depressão ou insônia. Mesmo com avanços, a hipermnésia ainda guarda muitas lacunas, e Bruno Iepsen afirma que a grande questão é entender por que poucas pessoas desenvolvem essa capacidade tão específica e como o cérebro consegue acessar tantas informações sem entrar em colapso. Para os especialistas, a principal lição é que memória saudável não é sinônimo de lembrar tudo, mas de equilibrar lembrança e esquecimento, e que, quando esse equilíbrio se rompe, buscar ajuda não significa perder uma habilidade, mas aprender a conviver melhor com a própria mente.
Este artigo foi baseado na matéria do Correio Braziliense, para acessar, clique aqui.