A demência, por si só, já impõe mudanças profundas na rotina da pessoa diagnosticada e de quem cuida. Em alguns casos, porém, o quadro pode vir acompanhado de um sintoma que costuma gerar ainda mais impacto nas relações familiares e sociais: a hipersexualidade. Ela se caracteriza pelo aumento do desejo sexual e por comportamentos inadequados ao contexto, como toques, abraços e beijos sem consentimento, além de exposição dos órgãos genitais e masturbação em público.
Esse tipo de manifestação não é frequente, mas existe. Segundo o livro Advances in Psychiatric Treatment, a hipersexualidade acomete entre 2% e 17% das pessoas com demência, e outros estudos, como um publicado na revista Geriatric Psychiatry and Neurology, apontam prevalência dentro desse intervalo, em torno de 9,3%. Especialistas também reforçam que esses comportamentos não representam desvio de caráter, perversão ou falha moral, e devem ser compreendidos como um sintoma neurológico. A condição demencial, vale lembrar, é um termo guarda-chuva que engloba diferentes síndromes e doenças, com destaque para a doença de Alzheimer, e afeta cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde.
Os comportamentos sexuais inadequados são mais frequentemente observados na demência frontotemporal, especialmente na sua variante comportamental. Eles também podem ocorrer na demência vascular, dependendo das áreas cerebrais acometidas. Na doença de Alzheimer, esses sintomas podem aparecer, mas tendem a ser menos comuns e geralmente surgem em fases mais avançadas.
A explicação mais aceita envolve alterações em regiões cerebrais ligadas a julgamento social, empatia e controle de impulsos, com destaque para os lobos frontais e, em alguns casos, o lobo temporal. Lesões em outras estruturas relacionadas a recompensa e prazer, como o corpo estriado, também podem aumentar a busca por estímulos prazerosos. A neurologista Marina Mamede Pozo, especialista pela Academia Brasileira de Neurologia e integrante da equipe da plataforma de consultas médicas particulares Inki, descreve esse funcionamento como um sistema com aceleradores e freios: a sexualidade é um impulso natural ligado a áreas mais profundas do cérebro, e o comportamento social adequado depende dos freios, principalmente nos lobos frontais. Quando a demência compromete áreas como o córtex orbitofrontal e ventromedial, a capacidade de inibição se reduz, como se o freio falhasse, e o impulso aparece sem o filtro que antes regulava o que é adequado e quando é adequado.
O momento em que a hipersexualidade aparece varia conforme a doença de base. Ela pode ser um sinal inicial na variante comportamental da degeneração lobar frontotemporal. Na doença de Alzheimer, tende a ocorrer em fases moderadas a avançadas, quando há maior desorganização do comportamento.
O psiquiatra Lucas Mella, da Universidade Estadual de Campinas, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer, ABRAz, Regional São Paulo, orienta que a avaliação médica seja buscada o quanto antes, porque a identificação e a investigação precoce dos sintomas favorecem o diagnóstico e o tratamento da patologia subjacente em estágios iniciais, quando aumentam as chances de melhora e de prevenção de agravamento para comportamentos de alto risco.
Redirecionar com calma, sem confrontar.
Estabelecer limites claros e consistentes.
Evitar humor sexualizado quando for gatilho.
Uma etapa decisiva é a psicoeducação. Compreender que o comportamento é um sintoma neuropsiquiátrico ajuda a reduzir estigmas e orientar intervenções mais eficazes.
Este artigo foi baseado na matéria do portal Drauzio, para acessar, clique aqui.