A chegada das terapias anti-amiloides traz uma mudança profunda não apenas no tratamento, mas em toda a jornada de diagnóstico da doença de Alzheimer. Para que esses novos medicamentos sejam indicados de forma segura e eficaz, não basta mais apenas a avaliação clínica. É necessário confirmar com precisão o que está acontecendo no cérebro do paciente.
Este artigo detalha as exigências de diagnóstico, os critérios de segurança e o papel fundamental da genética nesse novo cenário.
Por que o diagnóstico clínico não é mais suficiente?
Até pouco tempo atrás, o diagnóstico de Alzheimer era essencialmente clínico, baseado em sintomas e na exclusão de outras doenças por meio de exames de imagem comuns. No entanto, para o uso das terapias anti-amiloides, a confirmação precisa da presença da proteína amiloide no cérebro tornou-se obrigatória.
Isso acontece porque esses medicamentos agem em um alvo específico. Sem a certeza de que o paciente possui o acúmulo dessa proteína, o tratamento não tem indicação. Essa necessidade obriga o sistema de saúde a se adequar para oferecer exames mais detalhados, chamados de biomarcadores.
O papel dos biomarcadores: PET e líquor
Existem duas formas principais de confirmar o depósito de amiloide no cérebro. Uma delas é o PET amiloide, uma tomografia especial em que o paciente recebe um contraste capaz de mostrar as áreas onde a proteína está acumulada.
A outra forma é por meio da punção lombar, um procedimento que retira uma pequena quantidade do líquido cefalorraquidiano (líquor) para dosar os níveis de proteína amiloide e também da proteína tau. Ambos os exames oferecem a certeza diagnóstica necessária para decidir se o paciente é elegível para as novas terapias.
Segurança em primeiro lugar: O que são as ARIAs?
Um dos pontos de maior atenção no uso dos anticorpos monoclonais é o monitoramento de efeitos colaterais específicos chamados de ARIA (anormalidades de imagem relacionadas ao amiloide). Elas podem ocorrer de duas formas: como um pequeno edema (inchaço) ou como micro-sangramentos no cérebro.
Na maioria das vezes, essas alterações são assintomáticas e detectadas apenas por exames de imagem. No entanto, elas exigem um monitoramento rigoroso para garantir a segurança do paciente. Dependendo da intensidade dessas alterações, o tratamento pode precisar ser interrompido temporariamente ou até mesmo suspenso de forma definitiva.
O monitoramento por ressonância magnética
Devido ao risco das ARIAs, o acompanhamento com ressonância magnética torna-se parte integrante do tratamento. O paciente precisa realizar exames em meses específicos e antes de determinadas doses para verificar como o cérebro está reagindo à medicação.
Isso traz um desafio logístico importante. O acesso rápido e frequente à ressonância magnética é essencial para que o tratamento seja realizado com segurança, o que exige uma estrutura de saúde preparada para esse fluxo de acompanhamento.
A importância do teste genético APOE e4
Outro passo fundamental antes de iniciar as terapias anti-amiloides é a realização de um teste genético para identificar o perfil da proteína APOE e4. Esse teste tornou-se obrigatório porque pessoas que possuem duas cópias desse alelo (perfil homozigoto) apresentam um risco significativamente maior de desenvolver os efeitos colaterais de edema e sangramento.
No Brasil e na União Europeia, a presença desse perfil genético específico é considerada uma contraindicação para o uso de alguns desses novos medicamentos. Por isso, o aconselhamento genético e a testagem prévia são etapas indispensáveis para garantir que o benefício do tratamento supere os riscos.
Um novo padrão de cuidado
A necessidade de biomarcadores, monitoramento constante por imagem e testes genéticos mostra que o tratamento do Alzheimer está se tornando muito mais especializado. Isso demanda equipes multidisciplinares capacitadas e centros de referência preparados para interpretar esses resultados e conduzir o tratamento com o máximo de rigor técnico.
Embora esses processos tornem a jornada do paciente mais complexa, eles também garantem um diagnóstico muito mais preciso e um cuidado focado na segurança.
No próximo artigo, vamos discutir os desafios de acesso a essas tecnologias no Brasil, o custo dos tratamentos e o papel das políticas públicas na construção de uma linha de cuidado mais robusta.
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