Vacinas muito além da prevenção de infecções: o que a ciência revela sobre seus efeitos protetores para o cérebro, o coração e contra o câncer

Um conjunto crescente de estudos científicos vem revelando que as vacinas oferecem benefícios que vão muito além da proteção contra doenças infecciosas. Pesquisas recentes mostram que manter a caderneta de vacinação em dia pode reduzir significativamente o risco de demência, infarto, AVC e até mesmo de alguns tipos de câncer.

Proteção extra para o cérebro

Segundo o neurologista Bruno Diógenes Iepsen, diretor científico da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz), o cérebro não é um órgão isolado do sistema imunológico. “Inflamações sistêmicas e infecções repetidas podem ativar a imunidade e influenciar a saúde vascular e cerebral ao longo do tempo”, explica.

As vacinas funcionam como um escudo contra esse processo. Estudos publicados em revistas científicas como a Nature Medicine já demonstraram que a vacina contra o herpes-zóster está associada a uma proteção contra problemas neurológicos por pelo menos seis anos após a aplicação, com um aumento de 17% no tempo livre de demência.

Outra pesquisa, também publicada pela Nature, acompanhou mais de 430 mil idosos vacinados contra o herpes-zóster e o vírus sincicial respiratório (VSR). O risco de demência entre os imunizados para ambas as doenças foi 37% menor em comparação com quem não se vacinou.

A vacina da gripe também merece destaque. De acordo com um artigo no periódico da Academia Americana de Neurologia, a versão de alta dose, destinada a idosos, está ligada a uma redução de até 55% no risco de desenvolver Alzheimer em três anos de acompanhamento.

“Existe um número crescente de evidências de que a vacinação pode estar associada à redução do risco de demência”, afirma a GSK, farmacêutica responsável pelos imunizantes contra herpes-zóster e VSR, em nota.

A geriatra Maisa Kairalla, presidente da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), explica que a vacina de alta dose contra a gripe contém quatro vezes mais antígenos do que a dose padrão, sendo especialmente indicada para idosos e pessoas com o sistema imune comprometido.

Benefícios para o coração

As vacinas também protegem a saúde cardiovascular. Estima-se que o risco de eventos cardiovasculares graves aumente até sete vezes ao ficar gripado. Um estudo dinamarquês acompanhou mais de 1.200 adultos com mais de 40 anos e constatou que aqueles vacinados contra a gripe apresentavam metade do risco de complicações cardiovasculares, mesmo quando contraíam a doença.

O cardiologista Múcio Tavares, professor da USP e membro do Departamento de Vacinas da Sociedade Brasileira de Cardiologia, explica o mecanismo: “Uma infecção viral, como a gripe ou o herpes-zóster, é capaz de inflamar as paredes dos vasos sanguíneos e, com isso, deslocar placas de gordura acumulada, o que pode causar obstruções.” Esse processo é o estopim para um infarto ou AVC.

A Associação Americana do Coração já publicou novas diretrizes que colocam a vacinação ao lado de medidas clássicas de prevenção cardiovascular, como atividade física, alimentação saudável e abandono do tabagismo.

Prevenção contra o câncer

Duas vacinas já demonstraram capacidade de prevenir tumores malignos: a da hepatite B e a do HPV.

A oncologista Clarissa Baldotto, presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (Sboc), explica que a vacina contra a hepatite B foi a primeira a conseguir combater tumores malignos, protegendo contra o câncer hepático na infância. Já os imunizantes contra o HPV são a principal estratégia para erradicar o câncer de colo do útero, doença que ainda afeta cerca de 660 mil mulheres por ano no mundo.

A vacina contra o HPV previne ao menos seis tipos de câncer: colo do útero, vagina, vulva, ânus, pênis e orofaringe (região da boca e garganta). A imunização é indicada para homens e mulheres de 9 a 45 anos, com campanhas do SUS focadas em crianças e adolescentes de 9 a 14 anos.

Importância da vacinação na terceira idade

Com o envelhecimento, o sistema imunológico perde eficiência em um processo chamado imunossenescência, que torna os idosos mais vulneráveis a infecções. Por isso, manter a caderneta de vacinação atualizada é fundamental nessa fase da vida.

A neurologista Elisa de Paula Resende, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia, explica que infecções ativam o sistema imune e provocam mudanças no cérebro. “A massa cinzenta pode ser bombardeada por substâncias inflamatórias, prejudicando diretamente a memória, a plasticidade neural e a formação de novas células nervosas.”

Ao evitar infecções, as vacinas interrompem esse ciclo de inflamação e protegem a saúde cerebral a longo prazo.

Este conteúdo foi baseado na matéria “Ciência desvenda os verdadeiros ‘efeitos colaterais’ das vacinas”, publicada pela Veja Saúde. Para ler o conteúdo na íntegra, acesse: https://saude.abril.com.br/medicina/os-verdadeiros-efeitos-colaterais-das-vacinas-elas-afastam-avc-infarto-alzheimer-e-cancer/