Este é o terceiro de uma série de quatro artigos, explorando as valiosas lições do 3º episódio do ABRAz Talks sobre prevenção de quedas em pessoas idosas com demência. Depois de mergulharmos no olhar clínico da geriatria e na importância da arquitetura para um lar seguro, é hora de focar no corpo – seu movimento, sua força e seu equilíbrio. É aqui que a fisioterapia se revela como uma aliada poderosa, promovendo autonomia e qualidade de vida.
As quedas, como já sabemos, não são mera fatalidade. Para pessoas idosas, especialmente aquelas que convivem com a demência, o corpo se torna um terreno onde a fragilidade pode ser combatida. No 3º episódio do ABRAz Talks, a Dra. Juliana Martins, fisioterapeuta e presidente da ABRAz – DF, detalhou como sua área atua na linha de frente dessa batalha, desde a avaliação minuciosa até a reabilitação personalizada.
O olhar treinado da fisioterapia: avaliando para proteger
Para a Dra. Juliana Martins, a fisioterapia começa com uma avaliação abrangente que vai além do óbvio. Ela investiga aspectos cruciais como o equilíbrio, a mobilidade, a capacidade funcional e a força muscular. Parece simples, mas cada um desses elementos é um indicador vital da vulnerabilidade do idoso a uma queda.
Pense, por exemplo, na simples ação de levantar de uma cadeira. Se isso leva muito tempo ou exige um esforço desproporcional, pode ser um sinal de fraqueza muscular nos membros inferiores, um fator de risco significativo. Da mesma forma, uma marcha lentificada ou a dificuldade em manter o equilíbrio parado já acendem um alerta.
Quedas e demência: uma relação de mão dupla
Um ponto crucial que a Dra. Juliana Martins enfatiza, é a relação bidirecional entre quedas e demência. Isso significa que uma queda não é apenas uma consequência da demência avançada; ela pode ser um dos primeiros sinais de que a pessoa está começando a ter um declínio cognitivo. E, infelizmente, o contrário também é verdade: uma queda pode agravar o processo da demência.
Ela destaca que diferentes tipos de demência se manifestam de maneiras distintas. Enquanto demências como a frontotemporal ou a de corpos de Lewy podem apresentar alterações motoras visíveis logo no início, na Doença de Alzheimer, os sinais motores tendem a surgir em fases mais avançadas. Essa distinção é fundamental para direcionar a abordagem fisioterapêutica, que deve ser sempre individualizada.
Os fatores de risco que a fisioterapia aborda
Além das questões de equilíbrio e força, a fisioterapia atenta para uma série de fatores de risco que, muitas vezes, passam despercebidos:
- Alterações sensoriais: Dificuldades na sensibilidade tátil dos pés, na percepção da posição do próprio corpo (propriocepção), ou déficits visuais e auditivos influenciam diretamente a capacidade de manter o equilíbrio e se locomover com segurança.
- Polifarmácia: Conforme já vimos na perspectiva da geriatria, o uso de múltiplos medicamentos pode causar tonturas, vertigens e outros efeitos colaterais que aumentam o risco de quedas. A fisioterapia, embora não prescreva, está atenta a esses efeitos e trabalha em conjunto com a equipe médica.
- Problemas de sono: A insatisfação com o sono é um fator de risco surpreendente, mas importante, para quedas recorrentes, como apontado pela Dra. Juliana.
- Dupla tarefa: Imagine andar e, ao mesmo tempo, responder a uma pergunta ou carregar algo. Para uma pessoa com demência, essa “dupla tarefa” pode comprometer seriamente a mobilidade, revelando uma competição entre as funções motoras e cognitivas que aumenta o risco de desequilíbrio.
Sarcopenia: a perda muscular que exige atenção
Um dos vilões mais comuns e perigosos no cenário das quedas é a sarcopenia – a perda progressiva de força e massa muscular. A Dra. Juliana Martins é enfática: a sarcopenia não é um processo natural do envelhecimento; é uma doença muscular. Ela pode ser causada por sedentarismo, nutrição inadequada (baixa ingestão de proteínas, por exemplo), e outras condições metabólicas.
Quando uma queda ocorre, pode ser um sinal de que a sarcopenia já está instalada e que a musculatura precisa de atenção urgente. A boa notícia é que a sarcopenia pode ser combatida. A fisioterapia atua diretamente na recuperação dessa força e massa muscular por meio de exercícios específicos. Contudo, a Dra. Juliana reforça que o exercício, por si só, não é suficiente. A nutrição, com o acompanhamento de um profissional, é um pilar fundamental para reverter o quadro e, consequentemente, prevenir quedas mais graves.
A gravidade da queda e a urgência da prevenção
Para pessoas idosas com demência moderada a avançada, as consequências de uma queda podem ser devastadoras. Fraturas, especialmente as de fêmur, podem levar a longas hospitalizações, cirurgias e um prognóstico significativamente pior, com declínios funcionais e maior necessidade de cuidados. Por isso, a identificação e a intervenção precoce são cruciais para evitar desfechos tão negativos.
A fisioterapia, nesse contexto, trabalha de forma integrada com geriatras, arquitetos, psicólogos e outros profissionais. Essa abordagem multidisciplinar é o “sonho de consumo” para um cuidado completo e eficaz, reconhecendo que o idoso tem necessidades complexas que exigem múltiplos olhares.
No primeiro artigo, vimos a visão clínica da geriatria. No segundo, a importância do ambiente pela perspectiva da arquitetura. Neste, mergulhamos no papel do movimento e da fisioterapia. Em nosso próximo e último artigo, uniremos todas essas peças para discutir a abordagem multidisciplinar e a importância de uma prevenção contínua ao longo de toda a vida, construindo um futuro mais seguro e digno para todos.
Todas as citações foram retiradas do 3º episódio do ABRAz Talks, realizado no dia 30 de junho no perfil do Instagram da ABRAz (@abrazalzheimer).