Este é o quarto e último artigo da nossa série, baseada nas discussões inspiradoras do 3º episódio do ABRAz Talks. Ao longo dos artigos anteriores, exploramos as lentes da geriatria na identificação precoce dos riscos de quedas, desvendamos como a arquitetura pode transformar o lar em um porto seguro e mergulhamos no papel vital da fisioterapia no movimento que protege. Agora, é o momento de unir todas essas peças e mostrar a força da colaboração para um envelhecimento seguro e digno, especialmente para pessoas que vivem com demência.
A prevenção de quedas em idosos com demência é um desafio multifacetado que exige um olhar holístico. Não há uma solução única, mas sim um conjunto de estratégias que se complementam, formando uma verdadeira rede de proteção. E é nessa sinergia que reside o “sonho de consumo da gerontologia”, como bem salientou Walquiria Alves, a mediadora do 3º episódio do ABRAz Talks, referindo-se à avaliação multidimensional e à atuação em equipe.
A sinfonia do cuidado: geriatra, fisioterapeuta e arquiteto em harmonia
Recordemos os papéis essenciais de cada especialista que tivemos o privilégio de ouvir no ABRAz Talks:
- A Dra. Uiara Ribeiro, geriatra, nos mostrou a importância da identificação precoce dos fatores de risco intrínsecos, como a polifarmácia e a complexa síndrome do risco cognitivo-motor. Ela é a maestrina que diagnostica, otimiza tratamentos e direciona a orquestra do cuidado.
- Ciro Férrer, arquiteto e urbanista, nos ensinou que o ambiente não é um mero cenário, mas um ator fundamental. Suas dicas sobre contraste visual, iluminação adequada e a simplicidade dos pisos transformam o espaço em um aliado, mitigando riscos sem roubar a memória afetiva do lar.
- A Dra. Juliana Martins, fisioterapeuta, revelou a centralidade do movimento, do equilíbrio e da força muscular. Ela atua na reabilitação e no combate à sarcopenia, aquela “doença muscular” que, se não tratada, pavimenta o caminho para quedas graves.
Esses profissionais, junto a psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas e cuidadores, formam um time indispensável. A troca de informações e a coordenação das ações são a chave para um plano de cuidados verdadeiramente eficaz. Quando a geriatria identifica uma fragilidade, a fisioterapia atua na reabilitação e a arquitetura na adaptação do lar, criando um ciclo virtuoso de proteção.
O preço das quedas: mais do que fraturas
A Dra. Uiara Ribeiro fez um alerta importante: embora a mortalidade associada às quedas seja um dado alarmante, as consequências vão muito além. Uma queda pode levar a uma “perda funcional” significativa, tornando o idoso mais dependente. Além disso, frequentemente surge a “pitofobia”, o medo de cair novamente, que leva ao isolamento, à restrição de atividades e, ironicamente, ao enfraquecimento muscular, aumentando ainda mais o risco de novas quedas.
Para pessoas com demência, as quedas podem precipitar um declínio cognitivo e funcional ainda mais rápido, como o caso da paciente com Alzheimer que teve sua demência agravada após um hematoma subdural decorrente de uma queda. A queda, portanto, é um evento que abala o corpo, a mente e o espírito do idoso e de sua família.
Prevenção: um compromisso para a vida toda
A mensagem mais poderosa do 3º episódio do ABRAz Talks, ecoada por Ciro Férrer, é que a prevenção não deve ser um foco apenas na velhice ou quando a demência já está instalada. Os “14 fatores de prevenção da demência”, por exemplo, devem ser considerados “desde a gestação” e “durante o nosso envelhecimento”.
Isso significa que a nutrição adequada, a prática regular de atividade física, o cuidado com a saúde geral e o planejamento do ambiente onde vivemos devem ser uma prioridade em todas as fases da vida. Não se trata apenas de se preparar para a velhice, mas de viver cada fase com qualidade e segurança, antecipando as necessidades futuras. “Planejar esse nosso envelhecimento com qualidade”, buscar o acompanhamento profissional de forma proativa – antes que a sarcopenia ou a primeira queda aconteçam – é o caminho para um futuro mais tranquilo.
Combatendo a violência institucional: acessibilidade é direito
Ciro Férrer também nos provocou a refletir sobre as barreiras que ainda existem em nossa sociedade. A falta de acessibilidade – seja em espaços públicos, no transporte ou até mesmo na forma como os serviços (digitais, por exemplo) são oferecidos – foi categorizada como uma “violência imensa contra a pessoa idosa”. Essa barreira não só aumenta o risco de quedas, mas também compromete a autonomia e a dignidade.
A solução passa por um “letramento gerontológico” em todas as áreas profissionais e pela conscientização de que a acessibilidade é um direito universal, não um privilégio. Construir uma sociedade mais inclusiva é um passo fundamental para que a prevenção de quedas seja eficaz e para que todos possam envelhecer com respeito e segurança.
Ao final desta série de artigos, fica claro que a prevenção de quedas é um campo dinâmico e colaborativo. Ela exige a soma de conhecimentos de diversas áreas, uma visão de longo prazo e o compromisso de indivíduos, famílias e da sociedade como um todo. Cuidar de nossos idosos, e de nós mesmos, é construir um presente mais seguro e um futuro com mais dignidade para todos.
Todas as citações foram retiradas do 3º episódio do ABRAz Talks, realizado no dia 30 de junho no perfil do Instagram da ABRAz (@abrazalzheimer).